Novas medidas contra o spoofing tentam dificultar chamadas fraudulentas e aumentar a rastreabilidade de ligações usadas para enganar consumidores.
Chamadas telefônicas que exibem no celular o número de uma pessoa, empresa ou instituição conhecida se tornaram uma das ferramentas utilizadas por golpistas para ganhar a confiança das vítimas. A prática, conhecida como spoofing, consiste na adulteração da identificação da chamada para esconder sua origem real ou fazer com que o telefone apresente um número diferente daquele utilizado pelo verdadeiro originador. Em setembro de 2026, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) adotou novas medidas para enfrentar esse problema, determinando bloqueios, rastreamento e providências contra empresas associadas ao tráfego irregular.
A mudança interessa diretamente aos brasileiros porque o telefone continua sendo uma porta de entrada para golpes envolvendo bancos, empresas, órgãos públicos e serviços conhecidos. O ponto mais importante, porém, não é apenas o bloqueio de determinadas ligações, mas a tentativa de tornar novamente identificável quem está por trás de uma chamada suspeita. Com isso, consumidores podem ganhar uma camada adicional de proteção, enquanto operadoras e empresas de telecomunicações passam a ter responsabilidades maiores na identificação de tráfego irregular.
Por que uma ligação com número falso consegue enganar tanta gente?
O spoofing explora principalmente a confiança associada ao número que aparece na tela do celular. Uma chamada pode parecer vir de uma instituição conhecida, de uma empresa com a qual o consumidor mantém relacionamento ou até de um número familiar, embora a ligação tenha sido originada em outro lugar. Essa característica torna o golpe especialmente difícil de identificar apenas pela observação do identificador de chamadas, já que o número exibido não necessariamente corresponde à origem verdadeira da comunicação. A Anatel vem tratando a rastreabilidade como um elemento importante para reduzir esse tipo de abuso.
Na prática, o problema pode afetar consumidores mesmo quando eles adotam cuidados básicos, porque a fraude não depende somente de uma mensagem suspeita ou de um endereço de internet falso. O criminoso pode primeiro utilizar uma ligação para iniciar o contato e, depois, tentar conduzir a pessoa para outras etapas da fraude, como fornecimento de informações, acesso a páginas falsas ou realização de procedimentos que não deveriam ser feitos por telefone. Por isso, uma mudança na infraestrutura das telecomunicações pode ter efeito relevante: quanto mais difícil for mascarar a origem de uma chamada, maior tende a ser a possibilidade de identificar padrões anormais e interromper determinados fluxos.
As novas medidas anunciadas pela Anatel incluem determinações para bloquear e rastrear chamadas relacionadas a números adulterados, além de providências contra empresas envolvidas na transmissão de tráfego considerado irregular. Segundo as informações divulgadas sobre as medidas, algumas operadoras e empresas de telecomunicações passaram a ter obrigações específicas de rastreamento e comunicação de chamadas suspeitas. O objetivo é recuperar a capacidade de identificar a origem das ligações e dificultar que redes utilizadas para chamadas fraudulentas permaneçam operando sem responsabilização.
O que muda para quem recebe ligações suspeitas?
Para o consumidor, a principal mudança esperada é uma redução gradual de chamadas fraudulentas que dependem da falsificação do número de origem. Isso não significa que toda ligação desconhecida deixará de representar risco ou que o identificador exibido na tela passará a ser uma garantia de autenticidade. A medida atua principalmente sobre a infraestrutura utilizada para originar e transportar chamadas, enquanto a identificação de uma tentativa de golpe continuará exigindo atenção por parte do usuário.
Um cuidado importante é não considerar um número aparentemente legítimo como prova suficiente de que a chamada realmente pertence à instituição indicada. Bancos, empresas e órgãos públicos podem possuir canais oficiais de atendimento, mas uma ligação recebida inesperadamente não deve ser tratada como confirmação da identidade de quem está do outro lado. Quando uma chamada envolver dinheiro, senhas, códigos de autenticação ou informações pessoais, uma atitude mais segura é interromper o contato e procurar o serviço diretamente pelos canais oficiais já conhecidos, sem utilizar números ou links fornecidos durante a conversa.
A atuação regulatória também pode produzir efeitos para além do consumidor individual. Empresas de telecomunicações precisam aprimorar mecanismos capazes de identificar e rastrear comportamentos anormais, enquanto organizações que utilizam serviços de telefonia para atendimento legítimo podem enfrentar maior necessidade de comprovar a origem de seus fluxos. O desafio será equilibrar o combate às chamadas fraudulentas com a manutenção de comunicações legítimas, especialmente em operações que envolvem centrais de atendimento, terceirização e diferentes redes de telecomunicações.
Como o combate ao spoofing pode evoluir nos próximos meses?
A tendência é que o combate às chamadas fraudulentas dependa cada vez mais da combinação entre tecnologia, fiscalização e compartilhamento de informações. O Ministério da Justiça e Segurança Pública já vem defendendo maior integração entre órgãos públicos, setor financeiro, empresas de telecomunicações, plataformas digitais e sociedade civil para prevenir fraudes digitais. Essa abordagem reconhece que golpes podem atravessar diferentes serviços e que nenhuma empresa consegue enfrentar sozinha todas as etapas de uma fraude.
Para o consumidor, isso pode representar uma evolução gradual da experiência de receber chamadas. Em vez de depender exclusivamente de aplicativos de identificação ou da percepção individual sobre quem está ligando, o ecossistema de telecomunicações pode incorporar mecanismos mais robustos de autenticação, rastreabilidade e bloqueio. A eficiência dessas medidas, entretanto, dependerá da capacidade de identificar novas técnicas utilizadas pelos fraudadores e de adaptar os controles quando surgirem formas diferentes de mascarar a origem das comunicações.
Outro ponto importante será acompanhar os resultados concretos das medidas adotadas pela Anatel. O bloqueio de determinados fluxos pode reduzir uma modalidade específica de fraude, mas criminosos podem migrar para outros canais, utilizar diferentes formas de engenharia social ou combinar chamadas telefônicas com mensagens e páginas falsas. Por isso, a segurança digital tende a exigir uma estratégia contínua, na qual regulação, infraestrutura tecnológica e educação do consumidor avancem simultaneamente.
Nos próximos meses, o principal indicador a observar será se as ações de rastreamento e bloqueio conseguem diminuir de maneira consistente as chamadas com identificação adulterada sem prejudicar comunicações legítimas. A evolução também poderá estimular novas tecnologias de autenticação de chamadas e controles mais precisos pelas operadoras. Para quem utiliza celular diariamente, a mudança reforça uma regra simples: o número exibido na tela ajuda a identificar uma chamada, mas não deve ser tratado isoladamente como prova de identidade. À medida que as redes se tornam mais digitais, proteger o consumidor dependerá cada vez mais da capacidade de identificar a origem real das comunicações antes que uma ligação suspeita se transforme em prejuízo.
Fontes:
- Anatel — Medidas cautelares contra chamadas com identificação de origem alterada (Serviços e Informações do Brasil)
- Anatel — Combate ao Spoofing (Serviços e Informações do Brasil)
- Anatel — Autenticação e Identificação de Chamadas (Serviços e Informações do Brasil)
- Anatel — Chamadas Abusivas . (Serviços e Informações do Brasil)
- Ministério da Justiça — Integração para prevenção de fraudes digitais . (Serviços e Informações do Brasil)
- UOL — Anatel determina bloqueio e rastreamento de chamadas com spoofing (uol.com.br)

